Yeti

15/06/2025

Sinopse: Um viajante misterioso e um ser feito de poeira estelar partem rumo a um templo enterrado na neve, onde dizem habitar uma criatura lendária chamada Yeti. Mas o que encontram lá embaixo vai muito além do que os olhos podem ver. O Yeti não é o que dizem... e talvez nunca tenha sido.


Bilbyx são criaturas impressionantes, elas possuem uma capacidade enorme de desenvolvimento mental, seus raciocínios são complexos e, talvez, ainda mais rápido que um mortal, suas capacidades de dialogar com outros seres vivos são bem estruturadas e, em certos quesitos, bastante úteis. Encontrar algum ser dessa espécie vagando pelo planeta não é fácil, na realidade, de acordo com minhas pesquisas, os Bilbyx devem encontrá-lo por primeiro, então não estou certo de quem encontrou quem.

Os arcanos contemporâneos descrevem esses seres como "pequenas fadas", mas, para mim, essa descrição é falha. Veja bem, a indicação de "pequenas" para os Bilbyx indica que também existem "grandes fadas", já que houve uma comparação indireta de tamanho, todavia todos os Bilbyx são exatamente do mesmo tamanho, apenas suas características físicas são diferentes um dos outros.

Pelo que ouvi de suas histórias em contextos perdidos, os Bilbyx são seres originados da fusão entre duas partículas bases: essência arcana e poeira estelar. Depois do contato com o Manto Escuro, a essência arcana se espalhou pelo mundo - e talvez para os planetas adjacentes se por um acaso eles estavam bem alinhados, devo conferir essa parte um dia -, então está bastante disponível como recurso. Já a poeira estelar é, de modo extraordinário, um meio de transporte para eles, sua composição física se espalha nas partículas do ar assim que perde o contato constante com a essência e inicia-se mais uma longa jornada pelo espaço até encontrar algum planeta mítico ou híbrido, como o nosso.

A maioria dos pesquisadores, caçadores ou qualquer outra profissão com estudos diretos ou indiretos, não compreendem essa locomoção e origem espontânea dos Bilbyx, já que geralmente nunca tiveram contato direto com um deles. A curiosidade interessante sobre essa espécie que poucos pesquisadores sabem é que a migração entre mundos pode durar entre apenas alguns meses (caso haja mais planetas contaminados no mesmo sistema solar) até milhões de anos.

Para mim, é ainda mais interessante saber que esses seres podem se adaptar a qualquer tipo de linguagem, seja ela humana ou animal, fazendo com que os Bilbyx sejam uma carta coringa entre a natureza e a essência arcana. Suas aparências físicas são de pequena estrutura e de forma humanóide, eles possuem asas reforçadas de borboletas que os permitem flutuar e voar com facilidade. Enquanto suas asas batem, é possível escutar o ruído de seus movimentos, são sons de pequenos sinos cintilando, é encantador e não apresenta ameaça para nenhum outro ser vivo.

- O que exatamente você quer fazer no templo?

- Ouvi dizer que há uma criatura mítica lá dentro.

- Eu também sou uma, por que você não escreve sobre mim?

Nota rápida: Bilbyx são bastante ciumentos.

Puxei meu livro da lateral do corpo, joguei em cima da mesa e abri na página 53; Capítulo: Bilbyx.

- Isso serve?

O Bilbyx se remexeu, passou de um ombro ao outro lendo todas as duas páginas lado a lado. Seus olhos emitiram uma poeira azul clara, da mesma cor de seu corpo, tenho a sensação que sua alegria em ser notado transpareceu fisicamente.

- Você sabe bastante sobre nós!

- Apenas o que aprendi sozinho.

- Como você sabe sobre nossa movimentação espacial?

- Uma das vantagens de ser esquecido pelo tempo.

Depois da minha viagem de exploração nos confins do Novo México, descobri a presença de um ser mítico grandioso nas regiões extremas do planeta, o problema é que não fui informado pela entidade se estava no norte ou no sul. Porém, já havia estado na região sul em viagens anteriores e, até onde me era permitido enxergar, não existia nenhum vestígio de algo de tamanha grandeza. Um ser mítico geralmente gosta de ficar escondido e/ou isolado, ouvi dizer que o fundo dos oceanos é um ótimo lugar para isso, já que a humanidade ainda não alcançou o nível de tecnologia necessária para uma exploração profunda.

- Você sabe onde ele fica?

- Ah sim.

- Me leva até lá?

- Com certeza, mas vamos precisar da ajuda dos seguranças locais para entrar.

- Por que existem mortais protegendo um templo com presença mítica?

- Não são humanos, são arcanos.

- Por que não querem que ninguém entre?

- Na verdade, a situação é ao contrário, não querem que a criatura saia.

- Estamos longe?

- O que é longe para você?

- Boa pergunta.

Estou acomodado num chalé localizado ao topo de um pequeno muro, os moradores do local me permitiram permanecer durante algumas noites, foi uma conversa conturbada já que eles não conseguiam compreender minha língua fluentemente, mas no fim das contas alcançamos um acordo.

O sobrado muito bem cuidado, há uma plantação de trigo enorme que pode ser vista aqui de cima, me pergunto quão difícil deve ser manter uma lavoura impecável e saudável como essa. Por outro lado, sou apenas um observador de algo imaginário, a realidade por trás daquele milharal deve ser dura e constantemente exaustante, os mortais precisam dedicar horas do seu dia para manter coisas desse tamanho em pé. Se ao menos eu pudesse ajudá-los a entender.

- Desculpe a pergunta ignorante, mas como uma plantação dessa é possível num lugar tão fora de posição?

- Graças a nós!

- Então, são vocês que mantêm as plantas vivas?

- Parcialmente. Devemos admitir que os humanos ajudam bastante, mas são bastante sem noção em plantar esse tipo de produto em uma região tão fria, então nós damos uma ajudinha por baixo dos panos.

- Eles não ficam bravos?

- A maioria nem sabe de nossa existência, somos apenas seres voadores como mariposas para eles, só que graças a nós que as plantações continuam de pé.

- Parece cansativo.

- Nossa espécie precisa preservar ao máximo a mistura da essência com a natureza, então fazemos de tudo para manter o equilíbrio, temos vários cuidando da plantação agora.

- Essas horas da noite?

- Acha que as mãe natureza faz pausas?

- Interessante…

- Quer ver algo legal?

O Bilbyx levantou voo à minha frente, o segui até fora da chalé, o vento frio acertou minhas vestimentas me jogando um pouco para o lado. Levantei minha máscara de frio, apertei o cachecol e caminhei em direção aos sinos. Por mais que a essência arcana seja bastante poderosa, os efeitos da termodinâmica ainda continuam em ação, mesmo sendo esquecidos de vez em quando.

- Pronto?

- Quando quiser!

O pequeno humanoide flutuante cochichou sozinho, suas mãos minúsculas balançavam no ar enquanto emitiam poeiras brilhantes que refletiam a luz do luar. Sua aparência azulada logo se transformou em rosa claro, juntamente com a cor das partículas à sua volta. Me aproximei lentamente do seu ritual, ele estava bastante concentrado em seus sinais, mesmo assim conseguiu se comunicar comigo.

- Olhe lá embaixo!

Me inclinei para perto do muro de segurança que protege minha queda, o campo gigante da plantação de trigo está disposto no horizonte, o brilho da luz é a única coisa que me faz enxergar as sombras dessa distância. Bilbyx sobrevoou meu ombro direito, levantou sua mão direita fechada na altura da boca e levantou os dedos indicador e mindinho. Sua respiração foi firme, sua concentração foi determinada e, então, ele assoprou as pontas dos dedos levantados.

Seu sopro revelou uma luz rosa - da mesma tonalidade que sua roupa adquiriu - no milharal, a luminosidade teve origem da lateral do campo mais próxima da nossa localização e se espalhou como se fosse um espirro por toda a expansão da plantação. O tom rosa neon tomou conta da superfície das plantas, a cor reluzente foi sendo revelada aos poucos até cobrir boa parte da minha visão, uma imagem bidimensional de uma árvore formou-se diante do campo.

Devem haver milhares deles dominando a atmosfera da plantação, eles devem estar espalhados por toda a proximidade em outras plantações adjacentes. Poderia ficar aqui a noite toda observando essa criação.

- O que acha?

- Vocês são um exército!

Seu rosto assumiu uma feição séria, meu comentário não foi adequado.

- Perdão, não quis indicar a má ideia de um exército, pretendia afirmar a grande quantidade de vocês.

Sua feição voltou a ser amigável e despreocupada.

- Não se preocupe com isso, é difícil me acostumar com o vocabulário de vez em quando.

Voltamos para dentro do chalé minutos mais tarde, a apresentação de cores continuou ocorrendo mesmo sem nossa presença. Na mesa da sala de estar, abri um mapa grande da região que destaca algumas áreas de interesse, é um guia turístico, então os locais marcados são de bastante utilidade para viajantes mortais.

- Se você é um arcano tipo mago, por que não utiliza sua magia para encontrar o templo?

- Existem certos limites pessoais que eu prefiro não ultrapassar.

- Mas seria bem mais rápido.

- Seria bem menos empolgante encontrar meu destino também, não acha?

O Bilbyx pensou um pouco na resposta, suas asinhas continuaram batendo para mantê-lo no ar. Ele me observou por alguns momentos fazendo marcações no papel esticado, desconfiando de mim o tempo todo.

- Você não é daqui, não é?

- O que quer dizer com isso?

- Você é de outro planeta, assim como eu.

- É difícil de explicar.

Mesmo sendo um ser mítico como os outros que eu procuro, o Bilbyx não consegue assimilar minha essência, tampouco minha origem. Ele sabe que não sou um mortal, mas aparentemente não entende se minha origem é terráquea ou interplanetária como ele.

- Se eu contar onde o templo está, você me conta o que você é?

- Com uma condição.

- Qual?

- Você entra junto comigo!

Suas asas emitiram um brilho dourado, o Bilbyx diminuiu a intensidade do bater das asas e desceu lentamente até alcançar o mapa, ele colocou sua mão no queixo e olhou para baixo. Seu corpo girou algumas vezes até se encontrar no papel. Momentos depois, ele riscou com sua unha um local no quebra-cabeça mundial perto das geleiras, a poeira dourada interagiu com o material do mapa e fixou sua cor.

- Vamos para cá!

Me aproximei do mapa, o cheiro da madeira que compõe a mesinha atingiu minhas narinas, a cor branca e estilosa da bétula é marcante e elegante, combina perfeitamente com todo o ambiente interno do chalé.

- Isso é bem longe daqui.

- Nas geleiras… espera um pouco, você realmente não sabia onde ficava?

- Falei isso algumas vezes. Tive sorte de encontrar você.

- Quem encontrou você fui eu, não ao contrário.

- Tanto faz. Você está pronto?

- Pronto?

- Sim, temos uma viagem para fazer.

De forma misteriosa, todo o corpo do Bilbyx desapareceu por um piscar de olhos. Em seu lugar, apenas a poeira dourada carregada em seus ombros permaneceu no ar flutuando levemente acima do mapa. Mas, como foi em um piscar de olhos, ele retornou novamente a sua posição, nem o ar ao seu redor conseguiu se acostumar com a mudança repentina.

- O que foi isso?

- Fui avisar meu grupo que entraria em uma viagem.

- Nessa velocidade?

- Eu tecnicamente não saí daqui em momento algum, mas isso é uma conversa para depois.

A comunicação entre os Bilbyx ainda é um mistério para mim, mesmo já tendo pesquisado sobre eles, essas criaturas são bastante interessantes.

- Vamos?

- Como vamos chegar até lá?

- Vou marcar nosso ponto de saída dentro desse chalé.

Girei meus dedos indicador e médio, minha caneta à tinta com uma cauda de pena preta apareceu entre eles. Rabisquei o ar à minha frente, são apenas símbolos que representam um portão; nosso ponto de partida. O Bilbyx inclinou seu rosto para o lado, me observando metodicamente. A tinta escura e difusa ficou planando no ar por um tempo, estalei os dedos, minha caneta desapareceu, a figura desenhada piscou em poeira e evaporou rapidamente.

- Você realmente não é daqui!

- Pronto?

- Sim, vai ser uma viagem bem…

Bati palmas duas vezes seguidas.

Flocos de neve extremamente gelados e em alta velocidade atingiram minhas bochechas, minha visibilidade era baixa por conta da ventania.

O Bilbyx não conseguiu esconder sua euforia e espanto com nossa chegada instantânea ao local.

- O que? Como? O que diabos você é?

Apenas sorri como resposta. Cobri meu rosto com minha máscara, serei esquecido pelo frio em poucos momentos, mas ainda preciso esperar meu corpo se acostumar. O Bilbyx flutua acima do meu ombro, mal consigo escutar seus sinos por conta do vento, seu pequeno corpo se acostumou rapidamente com a mudança súbita de ambiente, até sua cor do corpo foi alterada para um azul bebê.

Me joguei para cima com um salto pequeno, fiquei flutuando uns 5 centímetros acima do chão para evitar a constante perda de atrito, coloquei a mão acima dos olhos e semicerrei as pálpebras tentando enxergar na minha frente.

- Você pode voar também?

- Estou apenas flutuando, é diferente.

- Impressionante.

- Ah, antes que eu esqueça, caso queira voltar para o chalé, você só precisa bater palmas duas vezes.

- Como você fez?

- Isso mesmo.

Caminhamos (ou melhor, flutuamos) pela nevasca, se minha localização estava correta, seria necessário caminhar estritamente reto desde o ponto de chegada, mas alguns picos de neve tornam a jornada um pouco mais complicada. Se qualquer mortal me observasse nesse momento, é de se esperar que afirmaria minha existência como um fantasma ou, até mesmo, uma miragem, porém duvido seriamente que haveria a possibilidade de encontrar qualquer ser que não utilize essência arcana por aqui.

- Se você é um mago, cadê seu chapéu?

- Perdi ele faz um tempo.

- Então, como você consegue usar esse tipo de magia sem ele?

Por um tempo, essa questão ficou riscada na minha mente, faz completo sentido um ser mítico como ele acabar chegando nessa conclusão.

- Tenho meus truques.

- Você fez uma caneta aparecer misteriosamente, depois nos teletransportou para quilômetros de distância, qualquer manipulador de essência estaria exausto nesse momento. Ainda por cima, você está voando!

- Flutuando, já falei.

- Isso é ainda mais difícil!

Enquanto caminhávamos, o Bilbyx me contou mais um tanto de informações sobre sua espécie, mantive-me firme e controlado para não sacar meu livro e escrever algumas anotações, então acabei guardando a maioria das ideias na minha cabeça.

Uma curiosidade intrigante é que a cor dos seus corpos muda de acordo com o clima da região, mas essa questão eu já havia notado. Contudo, a mudança climática não é o único fator que influência em suas alterações visuais, o humor do Bilbyx também é decisivo.

E, então, vem a parte inédita para mim. A comunicação dos Bilbyx é feita através da poeira estelar entre eles, do mesmo jeito que eles podem se locomover por ela, também podem se comunicar. O humor deles é compartilhado pelo grupo inteiro, ou seja, se um Bilbyx está chateado, todos estão.

Porém, existem certos deles que não sofrem esse efeito em grupo, esses são chamados de Líderes - como o Bilbyx que está me acompanhando - e controlam todo o ambiente, resolvendo problemas e ajeitando alguns palitos. Pelo que entendi, um grupo pode conter mais do que apenas um líder, mas o Bilbyx que está me acompanhando era o único.

Ele decidiu deixar sua equipe para trás para vir me ajudar?

- Está ouvindo isso?

O cintilar dos sinos do Bilbyx ficou mais agudo, suas asas reduziram o ruído e ele pousou em meu ombro.

- Consigo sentir, é poderoso!

- Todos os seres míticos são.

- Nós, Bilbyx, não somos assim.

- Vocês são vários, a atmosfera de vocês é difusa e bem espalhada, mesmo assim continuam sendo poderosos.

Suas asas bateram rápido por alguns instantes, o som dos sinos aumentou duas notas. Parece que ficou contente com o elogio.

A nevasca recuou enquanto caminhávamos por algumas horas, nosso campo de visão aumentou bastante. Atrás de um pequeno morro de neve, foi possível enxergar a ponta de alguma estrutura de pedra coberta por flocos. O Bilbyx bateu suas asas e girou pelo ar, estava bastante contente com a descoberta.

- O que você está fazendo aqui?

Dois homens, estão parados guardando a entrada do templo, ambos segurando uma lança maior que eles. As armas possuem uma estrutura majoritariamente de pedra reforçada com ligas metálicas que recobrem algumas partes da lança, suas pontas são feitas do mesmo metal, mas estão bastante desgastadas.

- Você não pode entrar nessa área.

- Perdão pela chegada inesperada, estamos atrás de uma criatura mítica que acreditamos estar dentro do templo.

- Como assim, vocês?

- Hm… ops, foi apenas um modo de falar.

Eles não podem ver o Bilbyx, por isso o homem estranhou quando citei a presença de nós dois. Pelo canto de olho, percebi que o Bilbyx revelou um sorriso discreto, entendendo muito bem a situação.

- Você não tem autorização para entrar nos níveis mais baixos do templo, por favor, vá embora.

Inclinei o rosto para o lado, há algo particularmente interessante entre os dois homens que protegem a entrada, eles são idênticos. Se o monumento atrás deles não estivesse emitindo uma quantidade surreal de essência arcana, os dois poderiam ser facilmente confundidos sendo um par de gêmeos.

Do outro ponto de vista, vivi o suficiente para conseguir diferenciar os mortais dos arcanos com os próprios olhos, sei muito bem que ambos na minha frente são arcanos do tipo guerreiro - essa classe não é majoritariamente bem humorada, então vai ser uma longa conversa. Mas, não é apenas isso, a manipulação de essência deles é notável, um deles (ou os dois ao mesmo tempo) está utilizando um tipo de feitiço de duplicação, os dois são a mesma pessoa dividida em duas.

De fato, uma habilidade rara, seu uso é bastante específico e, de maneira esdrúxula, bem divertido para gerar entretenimento.

- Se me permite, não estou aqui para gerar problemas.

- Então, vá embora!

- Acontece que eu realmente preciso entrar.

As duas figuras se posicionam em modo ofensivo, eles estão dispostos a me impedir de alcançar o interior. Estralei os dedos, massageei o pescoço e soltei um suspiro. Nem sempre a vida de um viajante é fácil e pacífica, mas faço de tudo para impedir combates desnecessários.

O homem mais a frente se lançou em minha direção, seus passos velozes ignoram a falta de atrito em suas solas. Ele é pesado, mas sua velocidade é considerável, a lança balança em suas mãos, seus dentes estão à mostra.

Ele se jogou ao ar, sua capa marrom e grossa é rebatida para o lado pela turbulência entre seu impulso e o vento gelado. Seus olhos escuros brilham mesmo não havendo uma forte fonte de luz por perto, a parte metálica da sua lança reflete os tons brancos da neve. Por um momento, antes da ponta chegar em mim, percebi quão genial e vantajoso é sua arma, sua estrutura majoritariamente espelhada impede que alvos inimigos comuns consigam enxergar a posição exata da lança quando está em movimento, diminuindo assim as chances do alvo desviar ou escapar de um golpe.

Como eu citei, para alvos inimigos comuns, o que não será muito útil no momento.

Desviei para trás, senti o vento cortante de sua lança transparecer entre mim e meu casaco.

Outro golpe, mais rápido, minha barriga como alvo. Desviei para o lado.

O homem enfurece por ter errado ambos os ataques e levanta sua arma para o alto, a ponta da lança reflete a luz que atinge meus olhos. Esse homem sabe lidar muito bem em uma briga, mas algumas técnicas suas deixam-o vulnerável.

Ele desfere um golpe vertical que me acertaria em cheio, não fui acertado pois esquivei com pequeno pulo para o lado. Por um momento, esqueci que estava com os pés no chão, a falta de atrito me fez derrapar e quase tive minha perna acertada.

Coloquei as mãos no bolso da minha blusa.

- Está bastante frio por aqui.

- Como ousa?

Outro golpe, outra esquiva.

Mais um avanço, mais um desvio.

Ele não cansa de desferir golpes, sua presença raivosa é ilustre e, de certo jeito, até honrável. Seja lá o que está lá dentro, parece ter bastante importância.

Depois de pousar no chão por conta de um dos seus ataques furiosos, endireitei a postura e limpei a neve do ombro esquerdo. Bilbyx, ainda grudado no meu ombro direito, está bastante empolgado com a batalha, seu rosto manifesta felicidade e um pouco de adrenalina - ele definitivamente não vai me ajudar.

Às vezes, sinto um pouco de falta dessa emoção frenética de combate, lembro-me de tempos perdidos quando era apenas um pequeno arcano em masmorras gigantes e complexas junto com minha equipe, eles geralmente faziam parte do ataque enquanto eu os mantinha vivos de longe. Aquele entusiasmo, misturado com toques de coragem em um prato recheado com medo e angústia era o que me fazia seguir em frente, era divertido lutar por certas causas.

Porém, não estou lutando por uma causa grande no momento, não o suficiente para ser obrigado a machucar um arcano ou alguma outra espécie, esses tempos já foram deixados para trás.

Fiquei parado, com as mãos no bolso, o calor do momento despertou dentro de mim.

O homem, à alguns passos, desferiu um golpe com sua lança, acertando meu estômago com força. A lança atravessou meu corpo, me mantive imóvel, olhando para seus olhos enquanto os meus perdiam o brilho..

- Aí se vai meu clone…

O homem na linha de frente ficou em estado de alerta, um pouco em choque com a cena diante de seus olhos. O som da minha voz vindo de trás deixou-o ainda mais furioso, consigo ver em seu olhar, a dúvida em sua mente é ainda mais forte e o mantém parado em estado de transe olhando para sua lança.

- Como?

- Achou que era o único que conseguia usar a duplicação?

Ele suspirou, olhou para seu clone na frente da porta, ainda mantendo sua postura ofensiva. Soltei o ar pela boca e vi o vapor de ar.

- Por favor, não faça isso, vamos parar por aqui.

Ele não me deu ouvidos.

Simultaneamente, ambos atacaram suas lanças em minha direção. O efeito do material espelhado em ambas as armas foi novamente notável, é ainda mais impressionante quando elas estão no ar.

As duas armas brancas atravessam meu peito, deixando dois buracos que perfuram meu corpo, um golpe fatal para a maioria dos seres habitantes da Terra. Meu segundo clone se desmancha no ar em uma poeira escura e difusa, os dois homens ficam boquiabertos com o que acabou de ocorrer duas vezes seguidas diante seus olhos.

- Vocês querem parar?

Pela terceira vez, reapareci em cima do monte de neve, começando a achar isso um pouco entediante. A força desses dois (mesmo sendo um só) é impressionante, ele não deixa a desejar quando o assunto é ser persistente, mesmo assim, ele ainda não chega perto do que eu sou, e isso é bem chato.

- Eu já disse, não estou aqui para brigar com ninguém!

- Você… você fez dois clones?

- Eu tenho mais alguns milhares, caso esteja interessado em continuar.

O som de aplausos chamou a atenção de todos nós, inclusive do meu terceiro clone que se movimentava aleatoriamente.

O bater de palma tinha sua origem dentro da porta de entrada, que foi seguido por uma risada.

- Eu adoraria passar o dia todo vendo vocês brigarem, mas nós já sabemos quem ganharia!

Uma mulher alta e de cabelo branco emergiu das sombras do interior do templo.

- Deixe eles entrarem!

O homem me olhou estranho por alguns instantes, franziu os cenhos e virou seu rosto para a mulher.

- Eles?

Caminhei em direção a entrada, passando lado a lado ao homem que me atacou agressivamente. O Bilbyx mostrou a língua para ele, mesmo sabendo que não poderia ser visto, soltei um sorriso breve por conta da sua ação. O homem me viu debochando e virou irritado. Ele correu até sua lança e se ajoelhou para pegá-la.

Meu terceiro clone apareceu em sua frente assim que suas mãos agarraram a arma. Pisquei duas vezes, o som de vidro quebrando indicou que as duas lanças se despedaçaram em migalhas no chão. Ele arregalou os olhos enquanto meu terceiro clone se desintegrava em pó diante dele, assim como os dois anteriores.

Ele podia ter feito isso desde o ínicio?, foi o pensamento que passou pela cabeça dele antes de me perder de vista assim que passei pela entrada.

A mulher de cabelo branco andou à minha frente, acompanhei seu caminhar sem questionar, querendo ou não, consegui entrar no templo.

- Não precisava humilhá-lo desse jeito!

- Faz parte da diversão, não acha?

- A propósito, invocar mais de dois clones é algo bastante poderoso, aquele lá na frente é um dos meus guerreiros mais fortes e, mesmo assim, ele possui apenas uma cópia de si, como conseguiu?

- Não é bem um clone.

- Um holograma?

- Manipulação temporal.

A mulher parou de repente, ajeitou seu cabelo para trás da orelha e suspirou fundo. Depois disso, ela deu mais alguns passos e parou de frente para uma mesa redonda composta de pedras preciosas lisas. O interior do templo é recheado por esse tipo de material, são superfícies lisas e espelhadas com diversas cores no interior, parece um domo.

O Bilbyx se remexeu no meu ombro, incomodado e entediado, seus olhos fitaram o espaço à nossa volta. Ele flutuou à minha frente e cruzou os braços.

- Se ele era tão forte, por que não conseguiu me ver?

Não houve respostas para essa pergunta e eu também não tenho uma.

Num movimento rápido para trás seus cabelos brancos e compridos são jogados para o lado, seus olhos tocados pela neve me fitam, seus cílios e suas pupilas possuem a mesma coloração intensa do gelo em flocos que nos rodeia, seu lábio é composto por um rosa vivo, quase vermelho, a região fria não parece fazer efeito em sua estrutura física. Mas não é só a aparência estrutural que a destaca, sua presença em minha frente é diferente daquela que os arcanos comuns possuem, sua atmosfera é madura e carrega consigo alguns fantasmas do passado, uma pessoa com experiência no campo; uma Coringa.

Em uma das minhas primeiras descrições, citei as diferentes classes de arcanos que observei durante (longos) anos, cada detalhe importante sobre suas principais características e curiosidades foram escritas de forma que todos possam compreendê-las. No final de todas as diferentes classes, os Coringas; a classe mista. Suas habilidades não estão restritas a uma classe em específico, sua qualidade de luta é ótima e precisa como um guerreiro, ágil como uma assassino, sua manipulação de essência é efetiva como um mago, suas resistências são eficazes como um tanque e seus pontos racionais são mais fortes que um ilusionista. Já sua forma de liderança é extraordinária, não é à toa que ela, pelo visto, está no comando de proteger o templo.

Em outras palavras, os Coringas são fortes em tudo, uma aberração de poder que os seres transcendentes decidiram criar para seu próprio entretenimento.

- Então, o que vocês querem?

- Estamos atrás da criatura mítica que se esconde aqui dentro.

- Isso eu já sei, quero saber o por quê.

- Uma pesquisa.

Ela olhou para mim, depois para o Bilbyx, semicerrou os olhos.

- Não venha com essa, para quem vocês trabalham?

- Sou um viajante, não trabalho para ninguém.

- Nunca conheci um viajante, não estou convencida.

Da lateral do meu corpo, embaixo do meu casaco, puxei meu livro com adornos azul, joguei-o em cima da mesa e o mantive flutuando alguns centímetros da superfície. As folhas se abriram e balançaram de uma lado para o outro até encontrar os capítulos dedicados aos arcanos. O resto do seu conteúdo foi mantido em segredo, por enquanto, por conta disso a coloração azul tornou-se verde.

A Coringa se inclinou para frente, seus sapatos fincaram no chão como uma garra. Ela analisou minuciosamente as escritas até encontrar a página que cita sua classe mista. Assim que terminou de ler, o livro se fechou sozinho e a capa voltou a sua cor azul escura original até, por fim, encontrar a cor preta..

- Você escreveu tudo isso?

- Sim.

- E cadê seu nome no livro?

- Não coloquei, ainda não foi finalizado.

Seu olhar me devorou por dentro, ela me analisou de cima a baixo preenchendo todo meu corpo. Seus olhos não escondem sua dúvida em meu ser.

- Sua agilidade e manipulação anteriormente… você é um coringa também?

- Como já falei, sou apenas um viajante.

- Nunca tinha visto um antes… meus pêsames.

O Bilbyx me olhou confuso, ele se manteve quieto durante nossos diálogos.

- Pêsames?

- Explicarei quando a gente voltar.

A Coringa olhou o Bilbyx, seus olhos brilharam junto com a poeira que ele emitia. Como falei, não é fácil encontrar um desses, muito menos fazê-lo ficar ao seu lado.

- O que estão procurando é um ser mítico intitulado por Yeti.

O Bilbyx se remexeu.

- Aquele homem gigante das neves?

- Os humanos locais o descreveram como um yeti, é nome é só uma homenagem a lenda, suas características são bem diferentes.

A mulher se ajeitou na cadeira improvisada e apontou para uma banqueta para que eu me sentasse junto.

- Por se tratar de uma criatura mítica perigosa, montei uma equipe de segurança para não deixá-la sair do seu templo.

- O templo é dela?

- Não se sabe quem o criou, só se sabe que ela está lá embaixo agora e queremos deixar assim.

- Podemos descer para vê-la?

A mulher olhou para cima, observou a estrutura interna do templo, depois levou as mãos até a boca e assoprou para esquentá-las. Girei os dedos, entre eles, minha caneta surgiu, a tinta fresca e pronta para trabalhar.

Em silêncio, rabisquei o ar em nossa frente, Bilbyx e a Coringa me observaram atentamente sem piscar, quase sem respirar. Meus traços caminharam de um lado para o outro, um objeto pequeno dividido em duas partes idênticas que não se sobrepõem, como uma costura adimensional e atemporal entre os tecidos do espaço-tempo. O caminho percorrido pelos meus dedos percorrem uma diagonal, virando bruscamente para o sentido contrário, percorrendo alguns centímetros antes de realizar uma curva oblíqua para cima, seu caminho foi seguido pelo encontro de outros quatro picos antes de cair em um vale infinito. Realizei esses mesmos gestos uma segunda vez e concluí minha obra com um estalo de dedos; um par de luvas.

Elas flutuaram até as mãos da Coringa, estacionando no ar a sua frente. A mulher me olhou, minha caneta sumiu assim que girei os dedos novamente, seu sorriso apareceu no canto dos lábios. Com um pouco de receio, ela colocou as luvas e sentiu suas mãos se esquentando rapidamente.

- Isso foi impressionante!

- Não foi nada!

A Coringa se ajeitou na cadeira e apontou para nós.

- A escada que leva até a criatura está atrás de você, temos três andares de proteção, em cada nível vocês encontraram uma dupla de seguranças de uma mesma classe. Faça o que tiver que fazer, mas de jeito nenhum quebre o contato visual entre eles.

- O que acontece se isso ocorrer?

A Coringa coçou o couro cabeludo e pensou na resposta.

- Ele ataca.

- Então, ele não pode cruzar a linha de visão entre duas pessoas se olhando?

- Isso.

- Desse jeito, se eu ficar ao lado da dupla, posso observar a criatura sem problemas?

- Sim, como se fosse uma barreira invisível.

- Mas, se uma das pessoas soltar a linha de visão…

- Ele ataca.

- Vou deixar isso em mente.

O Bilbyx se levantou junto comigo, estiquei as pernas e os braços como se estivesse me espreguiçando, o pequeno humanoide voador acompanhou meus movimentos. A escada caracol que leva até os andares inferiores é construída no chão, como se alguém tivesse apenas cavado para baixo, mesmo assim o ambiente por completo mantém sua estética clara e natural.

- Tomem cuidado, viajante, não sei quais são seus motivos, mas essa criatura é perigosa, de jeito nenhum entre na câmara desacompanhado.

O Bilbyx flutuou à minha frente.

- Pode deixar com a gente!

Degrau por degrau, descemos devagar e atentos aos sons, o ambiente não é aberto e é um tanto claustrofóbico, apesar disso é bem iluminado por todo o caminho, evitando qualquer tipo de sombra que ocultaria o Yeti

- Esqueci de perguntar o nome dela… talvez na próxima oportunidade quando a gente voltar.

Enquanto descendíamos, muitos pensamentos sobre essa criatura passaram pela minha cabeça, desde sua aparência até sua incapacidade de ser visto por dois observadores simultaneamente. Isso me lembra um clássico problema da física quântica conhecido como Gato de Schrödinger, alguns estudiosos passaram bastante tempo tentando entender essa analogia até perceberem a ironia do autor.

Um tremor fez minhas mãos segurarem mais firme no corrimão, o Bilbyx balançou no ar. Mesmo flutuando, ele sentiu algo anormal no ambiente. Continuamos descendo, passamos pela fenda que era protegida pela primeira dupla de magos, logo em seguida a dupla de guerreiros e, por fim, alcançamos a dupla de tanques.

Uma porta transparente é o que nos separa da cela em que mantém-se a criatura presa, um homem grande e uma mulher bem armada estão na parte de fora mantendo contato visual, seus corpos estão tensos e imóveis, como um par de estátuas. Nas duplas anteriores, o Bilbyx e eu passamos agachados entre os guardiões para não quebrar o contato visual entre eles, porém esse par de arcanos possui uma estrutura corporal muito maior, seus olhos estão bem acima da minha cabeça.

O Bilbyx voou para frente, mantendo uma distância segura entre a dupla.

- Olá… podem nos ajudar?

- Vocês querem passar?

- É… é exatamente isso.

As duas estátuas deram um passo para trás, liberando o caminho para nós.

- Simples assim?

- Vocês foram alertados em todos os outros andares e pela líder, não estamos aqui para impedir vocês de entrarem, e sim impedir daquilo sair.

- Certo…

A voz de Bilbyx falhou no fim da conversa, o tom das suas asas caiu duas notas, a incerteza das suas ações recentes o atingiu, quase consigo escutar seus pensamentos reflexivos questionando o porquê me seguiu durante essa jornada. Ele se aproximou de mim no ar.

- E como abrimos a porta?

O homem tenso e bem vestido pigarreou, sua garganta seca cobrou esforços por passar muito tempo aqui embaixo.

- Não é uma porta.

- Me parece uma.

- Você parece um humano, mas é um?

O Bilbyx ficou ofendido com a pergunta, seu olhar sério em direção ao homem devorou o ar à sua frente. Dei um passo para frente, interrompendo a discussão, não quero saber onde a briga entre os dois iria acabar.

- Como podemos passar?

- Só continue andando, ou voando se preferir, a porta a qual vocês se referem é uma cortina branca para bloquear qualquer manipulação de essência com origem interna.

- Ah, isso é um campo de força então?

O homem ajeitou seus ombros, a armadura gerou um ruído metálico no ar.

- Basicamente.

Caminhamos para frente, em direção ao véu claro que parece uma porta de vidro, as solas dos meus sapatos são a única origem de som por todo o ambiente, o clima sombrio nos veste feito um cobertor, a temperatura subiu durante a descida. A mulher endireitou a postura quando passamos por ela.

- Tomem cuidado!

Parei ao seu lado, olhei para ela e abri um sorriso, mesmo sabendo que ela não poderia ver. Levei a mão até minha nuca, arrumei meu cabelo que estava bagunçado e, então, esfreguei uma mão na outra. Uma faísca branca foi emitida durante o atrito entre minhas mãos, notei que ambos os arcanos balançaram ao ver o feito pelo canto do olho.

- Não se preocupem, não estamos em perigo aqui!

Com passos hesitantes, avançamos até a cortina. De braços cruzados, o Bilbyx permaneceu em silêncio flutuando em meu ombro, seu pequeno corpo fala por si só, sem precisar descrever verbalmente seus sentimentos.

Respirei fundo, estufei o peito e pisei para dentro da suposta jaula mágica.

Meu coração desacelerou.

O ar ficou abafado.

As ondas sonoras se perderam.

O volume do silêncio ficou mais intenso.

Todos os comprimentos de onda foram absorvidos pelas paredes, não há nada além da própria escuridão a ser enxergado.

Manter os olhos abertos é equivalente a não abri-los.

Por alguns instantes, o som da batida de asas do Bilbyx preenche meus ouvidos, sua velocidade indica seu medo.

- O que aconteceu?

Preciso de tempo para responder a pergunta, queria poder enxergar a questão à minha volta, porém a visão parece não existir. A voz do Bilbyx não ecoou, então o lugar pode ser pequeno, mas ela também não reverberou pelas paredes.

- Faz sentido.

- O que faz sentido para você?

- Imagine-se na pele do Yeti.

- Hm… não gosto da ideia.

- Se você não pudesse ser visto, aonde se esconderia?

O Bilbyx pensou na pergunta, a resposta veio rápido.

- Em um lugar escuro.

- Exatamente!

- Mas, se for o caso, ele não pode nos ver também, certo?

- Bom, se você for pensar na evolução, se a criatura vive em um ambiente escuro como esses, ela provavelmente é cega.

Um par de olhos azuis claros com uma fumaça branca rodeando as laterais afinadas se abre no alto à minha frente, preenchendo a maior parte do meu campo de visão. Engulo em seco.

- Esquece o que eu disse…

Uma massa de ar atinge minhas vestimentas, sou obrigado a estender o braço à frente do rosto para desviar a poeira. O Bilbyx se agarrou em meu casaco enquanto era jogado para trás, suas asas não foram fortes o suficiente para segurar a onda de vento que nos acertou. Nossos gritos são arrastados pela ventania.

- Mas… que diabos…?!

- Isso não me parece um yeti!

- Você já viu um?

A rajada de vento diminui gradativamente, um rugido ao fundo da sala me deixa em alerta. Esfreguei minhas mãos para gerar a faísca de luz anterior, quando a centelha entre minhas palmas ficou maior, soltei-a ao ar. Uma esfera de energia branca azulada voou pelo espaço onde os olhos estavam presentes, mas não encontrou nada no caminho. O rugido parou.

As asas de Bilbyx emitiram sons diferentes, a luminosidade ao redor do seu pequeno corpo ficou mais intensa, poeiras avermelhadas originaram-se das suas costas se espalhando à nossa volta.

Posicionei a palma da minha mão direita para frente, a luminosidade clara se espalhou em uma circunferência à minha frente, criando um véu quase transparente que servirá como um escudo.

- O que é isso?

- Uma cortina.

- Espera… igual aquela que passamos?

- Sim.

- Não sabia que você conseguia gerar uma dessas!

- Eu também não, nunca tinha visto uma antes de vir aqui.

- E como…?

O rugido voltou.

Os olhos brilhantes e gigantes se abriram novamente à frente, minha esfera de energia desapareceu na escuridão, o máximo que conseguimos enxergar foram os detalhes maciços e com relevos do chão e alguns entalhes nas paredes. Sinto o vento forte bater na minha cortina, o som da ventania passa ao meu lado; ela funcionou melhor do que eu esperava.

Os murmúrios cessaram, um momento de silêncio se estendeu por toda a área, até mesmo o vento ficou calado. Estamos sendo observados, mas não pelo par de olhos ao alto, por algo a mais se esgueirando pelas laterais. Fechei as pálpebras e me concentrei no ambiente, abafei o bater de asas do Bilbyx, diminui a velocidade da respiração e senti meu coração bater mais lentamente. Na minha mente, a imagem da cela revelou-se através da escuridão em meus olhos utilizando as cenas anteriores, mas o que estou procurando não pode ser visto, e sim escutado.

Uma respiração pesada, um ruído branco no limite de detecção ótica, o som rastejante das dezenas de patas corta o silêncio nas arestas da sala, ritmado e caótico. Abri os olhos e virei o rosto para a direção do ruído, ele parou instantaneamente. Bilbyx me encarou por um tempo.

- O que foi?

Coloquei o dedo indicador nos meus lábios.

Mais um rastejar do outro lado da sala, pisquei os olhos e virei o rosto na sua direção; ele parou novamente. Mesmo no escuro, abri um sorriso, sei que ele pode me ver.

Outro som, acima de nós. Não olhei em sua direção.

- Se segure em mim!

O Bilbyx segurou meu casaco pelo ombro direito. O som está mais alto, mais próximo, mais nítido, até que desvaneceu-se. Na minha cabeça, em um mundo real inexistente criado apenas pelos meus próprios conceitos, o tempo passou devagar, lembrei-me dos corredores do tempo que percorri até chegar nesse momento. Meus olhos brilharam em vermelho, a criatura não está atrás de mim, está atrás do Bilbyx. O silêncio adquirido pela sala indica que ele se jogou em nossa direção.

Me lancei para o lado, instantes antes do Yeti acertar o chão vazio. Pedaços de pedra foram lançados em minha direção. Um outro ataque é iminente, vindo da lateral esquerda da sala.

Esquivo com facilidade, mais destroços do solo são espalhados pelo ar.

Um terceiro ataque se encaminhou da lateral direita, ele acertou o Bilbyx. Gritei segurando o vazio no meu ombro.

- Não!

O ruído branco do cintilar das asas do Bilbyx foi abafado, perdido na escuridão que me cerca. A poeira que revestia seu corpo ficou para trás como uma mancha no ar.

Segundo após segundo, o clique do relógio passou diferente, talvez nem tenha passado. O momento esticou-se, o silêncio da sua falta grudado ao meu ombro amargou minha alma, o mar de poeira estelar foi deixada para trás por um erro meu.

Um som alto e claro que repetiu-se duas vezes no ambiente acalmou os ânimos; duas palmas.

Essa era nossa chave para voltar ao chalé, ele estava a salvo.

- Parece que sobrou só nós por aqui, hein!

Os olhos azuis claros de um predador ao alto mudaram de cor rapidamente, adquirindo uma coloração vermelho sangue. Um rugido fez-se escutar, dessa vez não acompanhado pela ventania. O som estava mais seco, nítido e harmônico, estava tentando se comunicar.

Com algumas tentativas, a criatura se adaptou e sua voz foi emitida na frequência necessária para que meus ouvidos compreendessem.

- Quem é você?

A voz é vibrante, porém não é única; são várias. O timbre de cada onda sonora distinta colapsando em meus tímpanos simultaneamente fez até mesmo meu casaco arrepiar. As vozes, mesmo sobrepostas, são claras e entendíveis, falando em um idioma que compreendo.

Depois de alguns momentos sem respostas, a criatura baforou e rugiu descrevendo sua frustração.

- Sou apenas um viajante.

- A quem devo a honra de ser visitado por um viajante?

- Eu só gostaria de algumas respostas.

Os olhos gigantes piscaram no alto, nada além disso pode ser visto na cela inteira.

- Quais seriam as perguntas?

- O que você está fazendo aqui dentro?

- Você não enxerga?

Não consegui compreender se a pergunta era retórica ou um sarcasmo, então me mantive quieto.

- Estou vendo a luz!

Olhei para minha volta, o breu sombrio e com baixa visibilidade me fazia questionar se ele estava falando sério ou apenas revelando um papo interno.

- Estou vendo tudo que seus olhos não podem ver.

- Como o que?

- Seu amigo está em um chalé no topo do morro ao sul da nossa posição, ele está preocupado e pensando em como você vai sair vivo daqui, contudo há um outro problema surgindo nas raízes de sua memória.

- E eu vou sair vivo daqui?

- Os arcanos me trancaram nessa cela de sombra infinita por medo, meus objetivos foram entendidos de formas errôneas.

- Qual seu objetivo?

- Mostrar a luz.

- Mesmo no escuro?

- A luz que você não pode ver.

Meus pensamentos vagam por toda a escuridão, tentando achar algum sentido nas frases vagas que a criatura pronuncia. Suas vozes são alteradas a cada fala, mas suas expressões continuam constantes.

- Você tem um livro, há um capítulo sobre mim intitulado de "Yeti", uma forma que os seres humanos conseguem ver.

- Correto!

- Porém, não acha isso um pouco conturbante?

- Qual parte?

- Criaturas místicas não podem ser vistas por humanos, apenas as híbridas, então como eles poderiam me descrever se não podiam me ver?

- Está dizendo que foi mentira?

- Estou dizendo que é possível enxergar a luz até mesmo em sua ausência, essa é a verdadeira forma da essência arcana.

Dentro de mim, a vontade interminável de escrever tudo que ele citou se acende, preciso me controlar para não anotar suas palavras e memorizá-las com cautela.

- Então, mero viajante, qual é sua real pergunta?

- Como posso ser visto?

- Pessoas comuns veem seus sonhos em suas mentes passando todos os dias, mas a vaga lembrança dissipa-se em questão de instantes; basta apenas um pequeno toque de escuridão para transformar-se em um pesadelo.

- Você entendeu errado…

- Seu problema não está na visão de um todo, aqueles que você interage podem interagir com você de volta. Seu toque continua sendo físico, sua pronúncia continua sendo verbal, mas sua presença é apenas temporal.

- Tenho pouco tempo até que ele me esqueça também.

- O que é tempo para você, viajante?

- O que é a luz para você, criatura mítica?

De modo um tanto quanto exótico, a criatura riu. As vozes ecoaram pelos meus tímpanos, a risada era maléfica, o som era expressivo, carregando o peso de sua essência consigo.

- Temos quase o mesmo problema, viajante.

- Você tem a resposta?

- Diante a revelação que a luz omitida me mostrou, fui capaz de compreender o que o escuro não poderia me mostrar, sua pergunta não está relacionada a como pode ser visto.

- Se você sabe tanto quanto expressa, qual seria minha pergunta?

- Como você pode ser lembrado?


"Um ser iluminado com capacidade de enxergar além do que pode ser visto, uma criatura com detalhes indefinidos por meio da natureza comum, um monstro horrível para aqueles que o enxergam, mas um salvador para aqueles que permitiram-se enxergar além do véu de uma atmosfera amedrontada. " - Yeti.


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