Morphóptica

07/03/2025

Sinopse: Em um mundo onde realidade e fantasia se misturam, um viajante busca uma entidade lendária que ninguém descreve da mesma forma. Guiado por um livro ancestral e por um velho caçador, ele chega a uma cabana envolta em névoa. Lá, confronta uma presença que abala sua memória e identidade. 



- Tome cuidado, caçador!

- Eu não sou um caçador, já deixei isso claro!

Com o olhar afiado e misterioso, Barba Branca se inclinou no banco e julgou o equipamento em minhas costas; uma espada estilo katana e um livro azul na lateral do abdômen.

- Não é comum ver esses dois juntos. - Retrucou ele.

- Sou só um explorador, escrevo tudo aqui dentro. - Bati com a palma da mão no livro azul. - Estou em busca dessa aqui!

Estendi ao Barba Branca um rascunho feito a mão do ser que busco para minha próxima pesquisa. Ele analisou cada detalhe mal feito do desenho, assim como qualquer outro caçador, entendeu sobre quem se tratava mesmo não havendo detalhes perfeitos. Após alguns momentos de silêncio, ele batucou com os dedos na mesa costeira do bar e balançou a cabeça.

- Elas são perigosas.

- O mundo inteiro é.

- Posso levá-lo até seu encontro, mas não garanto poder tirá-lo de lá. - Ele segurou o copo firme, a tensão em seus dedos expressava sua angústia. - Preciso fazer uma pergunta primeiro.

Massageei o pescoço com a mão, a pergunta que estava por vir já se tornara comum.

- Para quem você trabalha?

- Hm…

Por um momento, já estava pronto para respondê-la, mas nunca recebi esse tipo de questionamento em qualquer pesquisa nos últimos campos. Barba Branca não é o tipo de homem que é convencido por qualquer coisa, então citar uma empresa genérica ou apresentar um cartão de visitas não fará alteração alguma no seu humor. Todavia, eu estaria mentindo se falasse que trabalho para qualquer tipo de agência de buscas mitológicas, meu trabalho é puramente sozinho e para fins que não há compreensão entre os mortais.

Saquei o livro na mesa, sua estampa é completamente azul com detalhes escuros nas bordas. Em outros olhos, é apenas um livro mal feito e envelhecido com a poeira ancestral carregada pelos ventos temporais. Os olhos do Barba Branca fitaram a capa do livro, nada especial, posteriormente virando-se para mim e aguardando uma resposta concreta. Com o giro entre os dedos indicador e médio, a penosa com tinta fresca desenvolve-se pela minha mão seguida por um rastro vermelho e difuso. Assim como é de compreensão de qualquer outro ser mágico, carregar seus pertences sem nenhum tipo de bloqueio é como estacionar um carro e deixar as portas abertas. Mesmo que seja possível entrar e se acomodar, ainda sim precisa das chaves para iniciar a ignição; essa seria minha caneta.

A tinta preta na ponta da agulha caminha rapidamente pelos campos azuis aveludados da capa do livro espesso. A velocidade dos passos da única perna da caneta precisa ser constante; não devagar para evitar o espalhamento superficial da tinta, não rápido para evitar que a ansiedade seja um processo decisivo em um momento tão calmo. Se estiver devagar demais, a onda deixa-o para trás; se estiver rápido demais, a onda não acompanhá-lo.

O que foi escrito não pode ser visto por olhos mortais como um caçador, apenas presenciado por aqueles que um dia já sentiram o toque do Manto Escuro. Caçadores mantêm distância desse tipo de criação da Essência Arcana, é arriscado demais para um valor tão pequeno. Para mim, porém, é só uma escrita padrão que corre nas minhas veias como minha assinatura que não consigo compreender, são as rasuras de uma memória muscular que nunca foram apagadas.

A cor escura e opaca do preto se espalhou a partir da minha assinatura assim que concluí-a. O material versículo percorreu os antigos campos verdes, espalhando seus tons escuros difíceis de serem compreendidos, os relevos e detalhes em azul escuro logo se tornaram dourados. Em instantes, o livro velho e destruído se tornou uma obra bem cuidada, abrí-lo nesse estado revelará seu verdadeiro conteúdo.

Deslizei o livro sobre a mesa até alcançar o Barba Branca, ele evitou ser tocado pelo objeto com receio do que pudesse acontecer.

- Minha técnica é limpa. - Afirmei.

Hesitando, ele folheou as primeiras páginas e chegou à conclusão necessária para me ajudar. Ele olhou para mim e reparou no meu chapéu caído para o lado.

- Você é um homem curioso.

- Apenas para as coisas certas.

- Existem erradas neste mundo?

- Existem erradas no seu?

O silêncio se espalhou pela mesa, sendo mais alto que toda a conversa no resto do bar, as vozes podem ser altas, mas o clima sem palavras retido entre nós possui potência avantajada. Barba Branca fechou o livro, devagar e com calma, o tremor em suas mãos remete a um passado sombrio com seres da essência, por isso ele me julgou ao entrar em contato.

- Você trilhou essas palavras sozinho?

- Quando se está em paz, sua consciência é sua melhor companheira.

- Posso levá-lo até seu objetivo.

Barba Branca finalizou sua bebida.

- Prepare-se, estará chovendo.

- Como sabe?

- A chuva nos acertará da mesma forma que em um dia ensolarado, o luar da noite será tão escuro quanto o brilho do sol.

- Ambientes distorcidos.

A conversa entre nós terminou com a aprovação de ambos os lados, o balançar de nossas cabeças indicou o acordo entre nós e o segredo que será guardado pelas duas almas; uma humana, outra arcana. Nossa conversa foi primordial, cada sentença desferida foi um ataque, não para desarmar, sim para compreender.

Barba Branca se levantou e deixou o valor da bebida na mesa, embaixo do seu corpo utilizado, meu livro escuro deslizou para meu lado com um caminhar discreto e tímido, com medo de que outros seres o julgassem. Coloquei-o na lateral do meu corpo novamente, seu corpo comovente e escuro voltou-se a sua forma azul e envelhecida, um disfarce perfeito para que todos ao redor percam o interesse.

O bar estava razoavelmente cheio para um horário comum, as conversas fluíram no ambiente, os passos altos das solas dos sapatos indicaram as chegadas e saídas das pessoas pelo recinto. Meu posicionamento rente à janela me permitiu escutar um pouco mais da natureza ao redor do pântano, o restaurante à beira de estrada fora bem posicionado para admirar a natureza, uma pena que o mundo mortal não possui compaixão para as vidas em perigo nas estradas.

Como o bar era nosso ponto determinado de encontro e de saída, não tive outra escolha a não ser esperar o tempo passar até a noite. Muita energia seria necessária para me deslocar pelo mundo só para acelerar o momento, é preferível esperar.

Lembrei-me de uma memória distante enquanto olhava para as árvores que lideram para uma cascata. O fragmento de lembrança me levara para tempos afastados em uma noite estrelada, minha versão do passado corria irresponsável pelas ruas, permaneço parado e observando-o, evitando qualquer tipo de movimento. Mesmo sendo uma memória, um deslocamento minimamente errado também pode transformar sonhos em pesadelos, cuidar das linhas temporais da minha cabeça é tão sensível quando cuidar do seu retrato no espelho.

A versão miniaturizada sentou-se no meio fio, seus amigos da mesma faixa etária o acompanham. Não há nada em suas mãos, não há maturidade em seus olhos, nem tristeza em seu rosto, muito menos desespero em seu ser. Naquele momento, o pequeno ser era a presença mais pura da criação da natureza comum; nada a mais, nada a menos que o próprio resultado da evolução humana e biológica movidas pela ciência e pela mãe natureza. O grupo discute coisas sem sentido, observam as estrelas, riem de qualquer bobagem, sabendo, individual e subconscientemente, que a partir dalí tudo poderia mudar com um piscar de olhos.

Para aquele pequeno ser, tudo já havia mudado e ele sabia muito bem que não se enquadrava no mundo humano comum. Sua aparência física podia ser de uma criança, mas apenas para os observadores externos, aqueles tocados pela essência arcana claramente são diferentes. Diferente do seu grupo de amigos temporários, a minha versão passada já vivera uma vida inteira, talvez até mais do que uma, afinal até hoje é desconhecido os caminhos que as areias do tempo tomam ao percorrer o deserto de um arcano.

Seus olhos vermelhos escondidos pelos tons verdes disfarçaram sua identidade por anos, por causa disso fora possível se enturmar e percorrer o mundo já conhecido. Porém, pouco a pouco essa versão minha deveria se afastar de suas raízes, quando tudo ao seu redor muda, muitas vezes é fácil localizar o que se manteve igual. Muitas vezes.

Sentando no meio fio, seus olhos refletem as estrelas, seu tempo estava acabando e o momento de fugir estava próximo. Levitei atrás do pequeno pela lembrança como um anjo, meus movimentos leves e suaves me fizeram sentir como se fosse o vento da noite, as costas dele estavam marcadas de sujeira, o dia tinha sido comprido, ás vezes eu gostava de me sentir como uma criança e ignorar a existência do Manto Escuro. Tentei fugir, mas não havia para onde ir.

Minutos se passaram, em momentos periódicos uma criança ia embora, deixando o grupo menor. A conversa era contínua, mesmo depois de um membro seguir outro caminho, sabendo que o amanhã o levaria para esse mesmo momento. A lua se erguia, os brilhos da rua eram cada vez mais fortes, as estrelas se escondiam. Atrás do garoto, enxerguei todos caminhando para suas residências, imaginando como seria possuir uma para chamar de mim, afinal qual era exatamente a definição para meu próprio recinto de fuga?

Todos foram embora, o pequeno de cabelo curto permaneceu sentado no meio fio, após horas de conversas jogadas fora. Não havia mais o que ser falado, muito menos o que ser interpretado, era apenas o mero reflexo do que já acontecera diversas vezes. A presença de sua essência é diferente daqueles que não a possuem, obviamente é algo diferente de todos, mas precisamente igual aqueles que a têm. Não foram só minutos que se passaram com o garoto sentado no meio fio rindo, foram décadas, talvez até mais que isso.

As orelhas do pequeno se mexeram, seu cabelo balançou com o vento, a luz fantasiosa da lua refletiu em seu rosto. Ele virou para mim, me encarando nos olhos, lembro da sensação que senti naquele dia, de alguém me espionando pelos cantos durante toda a conversa. Entretanto, momentos antes de seus olhos me encontrarem, eu já havia me tornado um com o ambiente, tudo que o garoto vira era o vasto campo de areia atrás dele, recheado de estruturas para diversão na praça. Por mais que esteja em uma lembrança, ainda somos espectros atemporais ativos vagando pelo mundo das memórias, reviver algumas partes é tão arriscado quanto deixá-las passar, principalmente para um arcano.

Meus olhos abriram, mesmo que nunca tivessem se fechado, o dia havia passado completamente diante minha visão. Toda a névoa do passado cobrira minhas córneas pelo período de espera, provavelmente permaneci estático como uma estátua para os observadores que me viram, mas duvido muito que isso tenha ocorrido. Seres como eu são bastante afetados pela síndrome da atmosfera quando não realizam movimentos inusitados. Barba Branca está aqui, seus passos caminhando para dentro do salão são mais marcantes que uma bota comum.

Ele traz consigo uma jaqueta de couro marrom bastante resistente, uma bolsa de tecido sujo vazia nas costas e uma ferramenta amarrada em seu pulso.

- Você não vai levar nada, além disso?

Olhei para trás, as únicas coisas que possuo é minha espada e um livro, não posso julgá-lo por não entender o que mais escondo por onde ele não pode ver.

- Estou pronto!

Barba Branca respira fundo e solta o ar forte, parece cansado. O tempo prejudicou sua carcaça, a vida prejudicou sua alma, se ele ao menos deixasse-me ajudar, mas todos nós temos princípios internos irrefreáveis, minha presença até talvez o atrapalhe ainda mais em sua jornada.

Caminhamos para fora, algumas pessoas me observam como se fosse um morto-vivo ambulante, muitas delas são caçadores com marcas e cicatrizes, já meu corpo é completamente intacto e não possui nenhum vestígio físico das guerras passadas.

- Que horas são?

- Você não consegue saber as horas de maneira instintiva?

- O que você acha que sou?

- Alguém que conseguiria saber as horas.

Barba Branca remexeu seu pulso, fez algumas voltas com a mão e me entregou um aparelho.

- Não perca!

- Por quê?

- É perigoso caminhar sem ter noção de tempo.

- Não era disso que eu estava falando.

- Você não é como os outros, há algo errado.

- Errado?

- Diferente.

Ele nos guiou até uma trilha depois de andarmos algumas centenas de metros, a rodovia ao nosso lado ficou agitada em alguns momentos e serena em outros. Na minha cabeça, não consigo imaginar para onde essas estradas levam, muito menos aonde estou, mas o sotaque do Barba Branca me dá algumas dicas; estou longe de qualquer lugar que um dia já considerei minha casa.

- No seu livro, não tem seu nome, por quê?

- Não sei.

- Você escreveu, por que não colocar seu nome?

- Não sei meu nome.

Barba Branca parou de descer a trilha, se virou para mim e inclinou a cabeça. Seu braço se mexeu, a ferramenta em forma de corda se soltou, só assim descobri que era uma arma em forma de corrente. A ponta da corda é formada por um metal pontiagudo que reflete perfeitamente a imagem.

A corda gira, nossos olhos se mantêm fixos um no outro, os pássaros param de cantar, a natureza cancela sua agenda para observar. A respiração dele fica mais pesada, seus olhos semicerrados encaram-me com angústia. A arma branca feita à mão é lançada em minha direção.

O som cortante passa ao lado da minha orelha, o assobio do ar sendo fatiado faz-se ouvir pelos meus tímpanos. A lâmina acertou a árvore atrás de mim, ouço a movimentação dos galhos ao meu redor, passarinhos voando, rastejadores correndo pela vegetação.

Barba Branca caminhou em direção ao seu alvo, passando pela minha lateral direita. Seu peito está estufado, seus olhos permanecem mortos por dentro assim como antes.

- Eu falei, você é tem algo que não consigo entender.

Ele não atirou em minha direção de propósito, havia sim um alvo vivo envolvido. Me virei para trás e me deparei com uma serpente presa ao tronco da árvore. Não, é um animal híbrido, seu rosto me recorda algum tipo de cobra, mas seu corpo é mais similar a um lagarto.

Seres híbridos são bastante comuns nas áreas de transição entre a natureza original e a contaminada pela essência arcana. A caça desses animais são majoritariamente entre outras espécies similares, ignorando humanos ou animais mais racionais. Todavia, este híbrido tentou atacar-me, por isso que Barba Branca reagiu, ele sabia que eu não iria me movimentar durante sua investida.

Um ataque desses de origem mortal não surtiria efeito em mim, provavelmente não chegaria nem a encostar em minha pele, ele não teria força para isso. Mesmo assim, a lâmina assustadoramente afiada poderia me causar problemas caso estivesse distraído.

Barba Branca inseriu o animal para dentro do saco de caça que trouxe consigo, não estou certo da sua finalidade, entretanto também meu interesse em seu destino é nulo. Ele passou por mim novamente e, de maneira mais firme, voltou a liderar a trilha.

Em momento algum evitamos gerar barulhos no ambiente, como citei, os animais híbridos não ligam para visitantes humanos vindos do exterior, para eles isso faz parte da brincadeira. Desse modo, não fazia sentido nos preocuparmos em manter-se discretos. Por outro lado, alguma presença externa incomoda minha noção de espaço.

Um espectro atemporal é facilmente detectável quando se aprende a manipular a essência ao seu redor, ele gera uma interferência instantânea - mas de maneira constante - na sua atmosfera, similar ao processo de voo e percepção de espaço utilizados pelos morcegos com a frequência de som emitida. Por conta disso, tenho certeza que um ser material me fita, não apenas vislumbres do futuro.

Com o caminhar da trilha, a floresta ficou mais densa e escura. A terra firma transformou-se rapidamente em barro, as árvores grossas e vívidas passaram por transformações geológicas, apresentando um aspecto sombrio e pálido. A trilha bem definida alterou-se para passos antigos em um chão instável. A lua pode ser avistada entre as folhas e galhos ao alto, porém do outro lado também é possível observar o sol paralisado em seu próprio pôr.

Barba Branca parou à minha frente, sua mão treme, talvez de frio.

- Não posso passar daqui!

- Estamos perto?

- Possivelmente.

- Por que não termina a trilha comigo?

- Esse caminho não é meu, não posso continuar andando sabendo disso.

Ele virou para mim, suas roupas estão molhadas em regiões específicas pelo suor.

- Está na hora de voltar.

- Leve isso consigo.

Retirei a mão do bolso segurando seu relógio de pulso que me deu no início da caminhada.

- Pode ficar, leve de presente.

- Você estava certo, para um ser como eu, é estranho não saber que horas são em qualquer momento.

- Sabe agora?

- Não, contudo…

Girando meus dedos indicador e médio, minha caneta de pena com ponta fina apareceu entre eles. Observando o aparelho eletrônico de Barba Branca, rabisquei o ar com toques leves e preciso, do mesmo jeito que escrevi minha assinatura no livro. O movimento é suave; não rápido, não devagar. Cada toque é desenvolvido com maestria e destreza, cada detalhe escondido nos olhos comuns por trás das engrenagens são transferidos como uma pintura. Meu quadro foi o mundo todo através da minha visão, não havia contato material, mas sim essencial, é como se estivesse no alcance de todos, mas em um lugar que ninguém possa carregar.

Os olhos de Barba Branca cruzavam os oceanos vazios entre minha mão e o vento, visualizando cada movimento dramático que meu membro fazia, como se fosse uma escrita em pleno ar.

Em alguns segundos, minha obra de arte está terminada, um objeto sólido e maciço flutuou acima da minha mão. Girei meus dedos novamente, fazendo a caneta desaparecer. O novo aparelho formado por linhas flutuantes se solidificou assim que entrou em contato com a minha palma; um relógio idêntico ao dispositivo de Barba Branca, porém movido à essência arcana.

- Você definitivamente não é um caçador.

- Foi o que falei desde que nos conhecemos.

- Por favor, não me envolva nisso.

- Não há motivos, você me levou onde eu queria mesmo não confiando em mim.

- Você é estranho.

- Fique com isto.

Desembainhei minha katana com cuidado, o som penetrante da lâmina em contato com o ar refletiu em nossos ouvidos. Olhei para meu reflexo na lâmina, meus olhos vermelhos brilharam com intensidade, uma quantidade mínima de poeira azul despontou de trás do punhal. Estendi os braços, oferecendo minha arma branca como recompensa.

- Não posso aceitar.

- Ela não lhe trará mal.

- Sua arma é composta por essas… magias.

- A minha é diferente.

- Vai me matar assim que eu der as costas para ela.

- Essa espada esteve comigo por anos, ela me protegeu de combates que você mal conseguiria imaginar.

- Mesmo assim, ela não te protegeu daquele ser híbrido.

- Ela sabia que você cuidaria da situação.

Ele suspirou fundo, olhou para cima e contemplou a luz das estrelas.

- Você pode jogá-la na floresta no caminho de volta, mas peço que aceite meu humilde presente.

- Vai andar por aí desarmado?

- Estou mais protegido do que imagina.

- E depois disso?

- O que?

- Para onde você vai?

- Irei descobrir.

- Boa sorte!

- Para você também!

Ele aceitou minha espada, infelizmente Barba Branca não possui nenhuma maneira de guardar a katana, portanto manteve-a ao seu lado, tomando cuidado para não ser cortado, mesmo que isso seja impossível de ocorrer. Minha técnica de ferramenta nunca foi feita para ferir seu portador, é uma companheira fiel e resistente.

- Aí se foi ele… que tolice a minha, nem perguntei seu nome.

Não é meu primeiro contato com essa floresta, lembro de caminhar por aqui durante décadas atrás, antes mesmo de tornar-se uma floresta híbrida, a noite era escura até mesmo para os predadores locais. Não havia civilização por perto, nem mesmo a ideia de construção de uma rodovia, todavia os seres humanos são bastante impressionantes no quesito de mobilidade, se eles ao menos pudessem entender a forma com a qual comovo-me, talvez seria ainda mais impressionante.

De acordo com o Besouro Enferrujado, um ser mítico foi instalado pelas redondezas dessa parte da Terra, claramente foi ele que interveio com a formação natural do ambiente, nem todos os seres sabem bem quão poderosos são.

Nos primeiros minutos sozinho, não senti nada diferente daquilo que sentira, caminhei tranquilamente pelo mangue, a água não pode me encostar em minha pele, então também não fiquei molhado em momento algum. A sensação de estar sendo visto não desapareceu, e sim o oposto, o que me indicou corretamente para onde estava caminhando. É plausível que a criatura presente nesse espaço saiba exatamente minha posição, afinal esse é o intuito de utilizar o véu arcanista que sinto a presença me englobando, o mesmo motivo pelo qual Braba Branca não ousou em atravessá-lo, essa força sufocando provavelmente não faria bem a ele.

Vagalumes, sapos, sons da natureza em perseverança, todos os aspectos vivos podem ser sentidos ao meu redor, é uma beleza e tanto. O som é meu melhor amigo no momento, posso usá-lo para me guiar e detectar detalhes sonoros que não deveriam estar pelo ambiente, é como se fosse uma obra de arte, cada detalhe com uma sombra que o rodeia e cada visual com uma tinta distinta.

Segurei minha respiração por um momento, fechei os olhos e escutei, parado. O canto dos pássaros foi ofuscado, o barulho da água foi neutralizado, as folhas de movendo ficaram imóveis e, como consequência, o que sobrou foi o local que estava procurando. O rangido sólido e velho de madeira despertou meu interesse, não era uma árvore, mas sim uma cabana. Se tratava de um barraco velho e caindo aos pedaços nas laterais, sendo feito majoritariamente por madeira escura do mangue, com alguns detalhes de tijolos recuperados de algum lugar remoto.

Abri os olhos novamente, observei a cabana a alguns metros da minha frente, um pequeno palanque de madeira encharcada liderava até a entrada, a porta estava levemente aberta e era possível sentir a presença do ser mágico no seu interior. Caminhei até chegar no palanque, novamente não precisei desviar minha atenção para evitar causar barulho, afinal o ser no interior consegue sentir minha presença do mesmo modo que eu sinto a dele.

Acima da porta de entrada, há uma janela circular de vidro embaçado que demonstra um pouco do segundo andar, os detalhes estão escassos por causa da umidade do ar, mas é notável a falta de organização interior. A pressão arcana que sinto é grande, uma atmosfera concentrada e pouco difusa, é por conta desse tipo de sensação que os mortais não aparecem por aqui. Um vulto passa veloz de um lado ao outro da janela superior, mesmo que por alguns instantes, notei as silhuetas de pano escuro atravessando minha visão, espero que ele esteja pronto para uma visita.

Outra escolha não tenho, a cabana macabra é meu único destino, caminhei até aqui para isso. Segui as instruções que fui agraciado anteriormente, não há nada mais além disso, mesmo assim nem minhas mãos tremem mais. Depois de anos explorando o universo preso no mesmo grão de areia, o medo e a coragem são apenas características humanas. O som de predadores maiores ao redor da floresta atingiu minha consciência, ficar exposto aqui fora me transforma em uma caça iminente, pressionei minha mão contra a porta semiaberta, meu toque é o suficiente para empurrá-la.

O interior é escuro, vejo apenas os contornos claros dos objetos e alguns reflexos vindos de fora. Estalei os dedos na altura dos ombros, todas as lamparinas penduradas e apoiadas se acenderam, o clima deixou de ser sombrio e passou a ser aconchegante. O lado esquerdo da cabana é uma cozinha feita com paredes completamente de vidro, sendo possível enxergar qualquer coisa do lado de fora. Impressionante, não era possível observar esse material do lado de fora.

O meio da cabana, de frente para a porta de entrada, é uma pequena sala de estar com duas poltronas e uma mesinha de café no meio, uma xícara com líquido fervente está disposta no centro. Sua fumaça do calor é o maior indicativo de que ainda há alguém por aqui, mesmo que eu já tenha certeza disso.

Caminhei até a cozinha, observei a natureza afora, por algum motivo me senti escondido, como se nenhum ser exterior pudesse me enxergar, será esse o objetivo?

Passos no interior da cabana me chamaram a atenção, me virei bruscamente em direção ao outro lado da casa. Uma pessoa está deitada em um sofá circular ao lado da escada que leva ao segundo andar, o lugar parece aconchegante e delicado. Com alguns passos hesitantes, caminhei em sua direção, meus olhos se acostumaram com a luminosidade novamente.

Uma mulher, deitada e sorrindo para mim, vestia algo leve como um pano preto, como o véu do vulto que vi antes de entrar, era quase transparente, uma opacidade questionável. De outra forma, ela ainda estava bem vestida por dentro, seu rosto apresenta surpresa na visita. Com um pouco mais de análise, notei que suas vestimentas não são apropriadas para o clima frio, na verdade seres do tipo gélido não fazem questão de notar a presença do gelo que os rodeia.

- Quem é você?

- A resposta não está clara?

- Não repita o mesmo diálogo que teve com o caçador.

- Eu não sou um caçador.

- Essa não foi minha pergunta.

Me aproximei um pouco mais, preciso de mais detalhes para entender o que pode ser esse ser mítico. Suas palavras são perfeitas, seu sotaque é neutro, sua fala é precisa e encantadora, sua língua é a mesma que a minha. Com meus passos, a figura remexe-se, incendeia-se em luz branca e, de modo inatingível, assume uma aparência familiar em frente aos meus olhos. Ela continua sendo uma mulher, mas todas as suas características estão distintas do anterior, tudo nela mudou, mas não consigo dizer exatamente o que. A obra irrealista da fusão entre a natureza e a essência arcana preencher o espaço material à minha frente, como posso eu, um ser viajante, descrevê-la com palavras?

Há momento, nessa vida inalteravelmente mágica em que os comprimentos de onda gerados pela natureza física não compreendem mais a formação ao seu redor, o mérito de certas criaturas em ludibriar as leis propostas pelos mortais é o que às tornam mágicas e indescritíveis, um sentimento carregado apenas pela emoção e nunca por uma palavra. Em outros termos, a mulher materializada em cima do sofá é perfeita, em todos os detalhes que possam ser imaginados e, por exatamente esse motivos, não pode ser descrita. O perfeito para cada ser é diferente, um conceito intrínseco na mente de todos, a ideia é igualmente distribuída pelos pensamentos de cada indivíduo, a percepção é idêntica para todos, mas seus resultados imaginados são completamente distintos, esse é o princípio básico desse ser mítico à minha frente.

- O que você vê?

Esta foi a pergunta feita pelo ser que distinguiu meus pensamentos em conclusão, ela não é como eu, muito menos eu sou como ela. Sua identidade é particularmente escondida, ninguém - além de sua própria consciência - pode enxergá-la. Para os mortais que se aventuram nos mares, ela é conhecida como uma sereia. Para seres arcanistas, ela é conhecida como bruxa. No meu caso, um ser amaldiçoado pelo Manto Escuro, ela é uma Morphóptica, um nome derivado das palavras "morfia" e "óptica", para seres que são alterados de acordo com a visão de cada um.

Devo admitir que esse tipo de criatura é impressionante e perigosamente atormentadora, sua força de repulsão emitida enquanto o alvo se aproxima é tão intensa quanto sua força de atração quando seu alvo está próximo, sua imagem ajustada aos ideais individuais é o que a torna uma arma poderosa. Sua classificação é de fato mítica, poderes como esse não deveriam estar presentes perto da civilização, por isso foi difícil encontrar sua real localização.

- Vejo…

Assim que minha boca abre, suas aparência é alterada outra vez de forma total, de maneira cuidadosa, contínua e linear. O pensamento que cruzou minha mente não conseguiu encontrar o neurônio responsável por criar a ideia de beleza, uma vez que sua imagem foi alterada pela terceira vez. É impossível, para um ser externo como eu, identificar as mudanças, mesmo sabendo que nada mais está igual. Contudo, há uma característica específica que se manteve, seus olhos verdes e suas pupilas verticais, será por preferência da Morphóptica?

Seus olhos me fitam profundamente, eles tentam alcançar minha alma e, lá no fundo, percebo suas indecisões. A criatura não entende o porquê sua estrutura visual está sendo alterada tantas vezes para um mesmo indivíduo. Mesmo assim, seu contato visual inquebrável me gera conforto, como se um abraço espiritual estivesse ocorrendo.

"Qualquer ser potente o suficiente para encarar seus olhos citariam características distintas, cada qual ninguém compreenderia, mas aqueles que sabem do verdadeiro significado de perfeição não tentariam questionar sua presença em meras palavras." Esta é a citação transferida pela criatura, é o que ela quer que eu deixe guardado na memória.

- Como entrou aqui?

- Sua porta estava aberta.

- Não o vi chegando.

- Eu sou bastante quieto.

- Sabe que não estou falando disso.

- Falta de atenção?

- Como me achou?

- Seu véu arcanista é intenso.

- Para seres mortais, sim, mas se você fosse mortal não estaria aqui.

- É fácil detectar com manipulação de essência arcana.

- Se fosse esse o caso, eu também teria o notado.

Ela se levantou do sofá, seus pés descalços e lisos caminharam pelos rangidos de madeira em minha direção. Seu corpo desprovido de roupas completamente opacas balançou como se o vento estivesse atingindo-o, suas características continuaram em constante mudança. Ela abriu um sorriso assim que ficou frente a frente comigo, largo e extrovertido, ao mesmo tempo que era fechado e tímido.

- Existem outros de você por aí, assim como eu. Preste atenção ou será trocado por si mesmo sem perceber a mudança.

- Você já os viu?

Ela avança em mim, sua essência não apresenta ameaça, mas sinto gatilhos internos que iniciam a barreira de proteção. Seus braços abrem e ela me envolve neles, com um abraço apertado, apoiando seu rosto em meu peito.

- Você é diferente, seu peito bate de outra forma.

- Quão diferente?

- Não se perca como os outros, você foi o último que restou.

Por um momento, de maneira repentina, seus olhos adquiriram uma tonalidade distinta, um tom de vermelho passou pelas suas íris. Em um instante, pensei que havia visto alguém conhecido, mas talvez tenha sido o efeito da sua manipulação. Talvez.

- Você disse isso a eles também?

- Eles não me ouviram, muito menos me encontraram.

- Você é apenas um sussurro…

- Para aqueles que se foram, sim, para aqueles que ficaram, sou uma memória, mas para você, o que eu sou?

O silêncio absoluto reinou entre nós dois, acredito que esse mesmo barulho nulo tenha se espalhado para distâncias maiores, já que não lembrei-me qual foi o último som externo que eu havia escutado. Instantes, segundos ou minutos, não importa, o tempo ali não clicava como o tempo de lá, o período dessa cabana era incontável.

- Fique e mostrar-te-ei o caminho certo.

Afastei-a do seu abraço apertado, sentindo uma pontada no meio. Segurei suas mãos leves e calmas.

- Assim como os outros, meu caminho ainda está sendo desbravado.

- Mas, no caminho atual, você me viu.

- Outra vida, no entanto, não posso desperdiçar, outra oportunidade dessas talvez o tempo não trará.

- O que quer dizer com isso?

- Na sua visão de um caminho correto, você diria a mim o mesmo caminho tomado pelos outros iguais a mim ou apenas aquele que gostaria que fosse diferente?

- Quem disse isso, você ou sua cópia próxima?


"Qualquer criatura dotada de poder suficiente para sustentar o peso de seu olhar descreveria formas distintas — nenhuma delas inteiramente compreensível. Aos que conhecem o verdadeiro significado da perfeição, porém, não caberia tentar traduzi-la em palavras. Sua presença é sentida, não explicada."


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